Tive a sorte imensa de conseguir um ingresso para a peça teatral da Broadway The Blithe Spirit, de Noël Coward, no dia 14 de junho de 2009. Na verdade, eu teria pago pelo ingresso ainda que apenas para ter o privilégio de entrar no teatro somente após o final da peça, para poder aplaudir de pé, junto com o restante da platéia, a atriz britânica Angela Lansbury. Nascida em 16 de outubro de 1925, é recordista mundial de Tony Awards (o equivalente ao Oscar do teatro) de melhor atriz. O quinto Tony ela recebeu no dia 8 de junho de 2009, pela mesma peça The Blithe Spirit que eu assistiria 6 dias mais tarde.
A sua interpretação absolutamente contagiante do papel de Madame Arcati na farsa de Noël Coward foi, para mim, ao mesmo tempo um grande prazer e uma grande honra presenciar ao vivo. Por incrível que pareça, no entanto, foram os olhos dela que mais me roubaram a atenção. A vitalidade e a expressão de gratidão contidos naquele olhar se transformaram num dos momentos mais emocionantes e tocantes que já experimentei no teatro em minha vida. Ela se encontrava radiante de um modo que as pessoas só ficam quando lhes é dado viver de uma forma muito mais rica do que a maioria das mentes e das consciências se permitiriam imaginar. No palco, ela se encontrava na posse tão obviamente absoluta da magia de simplesmente “estar lá”, na Broadway, aos 83 anos de idade, numa peça de 2 horas com apenas 7 atores. Eu não pude evitar o aperto na garganta à medida que eu presenciava a capacidade dela em absorver as reações da platéia, as risadas, o aplauso e – creio que posso me
referir a esse estado de espírito como – “a insustentável leveza do ser”. Um estado de espírito que sempre existiu em todos nós desde o início da humanidade, mas do qual nos defendemos e afastamos por razões que escapam à explicação dos maiores filósofos e psicanalistas que já viveram. Talvez nós tenhamos medo de perdê-lo, talvez ele seja muito belo para que nos permitamos sentir, ou talvez nós simplesmente não tenhamos a capacidade de senti-lo.
Ao assistir hoje (28 de junho de 2009) o vídeo da premiação do Tony de melhor atriz no YouTube, tive a confirmação de tudo o que senti e presenciei naquela noite, no teatro. Angela Lansbury disse apenas que estava agradecida. Agradecida por “estar lá”, diante de um grupo que a reverencia e aplaude pelo talento e resistência. E para dar mais encanto ao momento, ela, dentro de um espírito de verdadeira generosidade, jogou tudo para o alto dizendo, para quem quisesse ouvir, que esta sua conquista do Tony fora injusta. Mas obviamente ela adorou mesmo assim, e agradeceu a todos pela indulgência. Um pouco antes do discurso, enquanto era aplaudida de pé, ela se curvou sutilmente como para agradecer não apenas aos atores e à comunidade teatral presente na sala, mas à vida, por tê-la tratado com tanto carinho.
Eu encarei esses momentos, no teatro e no YouTube, como verdadeiramente extraordinários porque, para mim, Angela Lansbury é, de certo modo, um símbolo de como viver a vida em toda a sua plenitude. O fato dela experimentar tanto sucesso mesmo na velhice avançada, o fato dela ter interpretado um personagem que se encaixa tão bem à sua personalidade, é ao mesmo tempo comovente e inspirador. Faz do envelhecer uma perspectiva maravilhosa, onde coisas fantásticas ainda podem acontecer, como se a vida continuasse a se abrir até o fim. Angela Lansbury perdeu seu marido em 2003, tendo permanecido casada por mais de 50 anos, um dos casamentos mais longos entre todos os atores famosos. Existe uma graça e ausência de esforço na expressão de Angela Lansbury, que parece dizer: “Se você tratar bem da sua vida, ela também a tratará bem”. E existe dignidade e disciplina nela, que nos faz querer tornar pessoas cada vez melhores. Parabéns, Angela Lansbury, pelo seu Tony. E parabéns por uma vida bem vivida!



