Você Sabe Falar Português?

by Dr. Alexandre Feldman on 11/06/2010

A Reforma Ortográfica e o Declínio da Cultura no Brasil

Reforma Ortográfica e suas consequências negativas

Reforma ortográfica traz desconforto e mal-estar

É fato que muitas pessoas que hoje ocupam os mais importantes cargos públicos do Brasil, nem sequer frequentaram escolas. Outros frequentaram mas pouco estudaram, pouco aprenderam.

É desolador que decisões sobre rumos da educação deste país estejam nas mãos de pessoas assim.

Claro que ninguém é melhor que ninguém por ter estudado. Muita gente ruim frequentou ótimas escolas e muita gente boa, ocupando ótima posição socioeconômica e detendo sucesso pessoal não frequentou nenhuma escola.

Mas cada um pode possuir características diferentes, por ter ido ou não à escola: pode pertencer a grupos sociais e intelectuais diferentes, com base nas escolas frequentadas, livros lidos, línguas faladas, viagens realizadas.

Nos países que mais difundiram sua cultura e ciência ao mundo ao longo da História, como Inglaterra, Estados Unidos, França e Alemanha, de forte tradição cultural e científica, berços de indivíduos que moldaram e continuam a moldar as fronteiras do conhecimento literário, filosófico, matemático e científico (justamente o tipo de conhecimento que somente se pode aprender em escolas), a língua (idioma) é o maior tesouro.

O idioma é a forma de comunicar. Do idioma depende a compreensão e difusão da informação a ser passada. Escolas têm como atributo justamente difundir e assegurar a compreensão e aplicabilidade dessa herança de milênios de conhecimento humano. Se o idioma é simples e claro, o processo de transmissão e aprendizado de cultura e erudição é livre de obstáculos.

Uma coisa é certa: o idioma português não é nada simples. Assim, para comunicar uma idéia de forma clara, de modo que alguém compreenda exatamente o que se quis originalmente dizer numa sentença falada ou escrita, é preciso escolher dentre uma multidão de maneiras diferentes de falar ou escrever. Isso causa um impacto negativo na produção acadêmica, na difusão dessa produção para o resto do mundo, na interpretação do que foi falado ou escrito e, portanto, até mesmo no ensino, no aprendizado e no nosso próprio bem-estar. É muito ruim não saber se aquilo que falamos ou escrevemos pode ser não-intencionalmente mal interpretado.

E pode isso causar impacto negativo na nossa saúde? Claro que sim! Dependendo do que está em jogo para ser comunicado (desde uma simples lição escolar, uma situação na nossa vida em sociedade, até uma denúncia policial), o modo como uma sentença – que deveria ser objetiva – foi exposta, pode significar o fracasso. E o fracasso traz consigo stress, mau humor, tristeza, depressão, mudança de comportamento, prejuízo no relacionamento social, familiar, diminuição da auto-estima – enfim, uma espiral descendente que leva, inexoravelmente, à perda da saúde. Não é um exagero afirmar que nosso sucesso e saúde dependem, em vários níveis, do modo como nos expressamos.

Nos países prósperos,  língua e ensino são patrimônios em evolução sim, porém ao mesmo tempo dotados de estabilidade e previsibilidade de modo a preservsar uma norma culta que não prejudique a comunicação clara das idéias, muito menos gere conflitos notórios de comunicação entre gerações. Por favor note que estou me referindo à norma culta e não à gíria, pois gíria é um caso à parte.

Estudos já demonstraram, repetidamente, que povos – agrupamentos sociais de crianças e adultos – vivendo ambiente social, costumes, valores e tradições estáveis, são mais felizes, mais unidos e mais saudáveis.

Recentemente, no Brasil, tivemos duas reformas, a meu ver irresponsáveis e danosas às famílias, valores, tradições e bem-estar: uma escolar e outra ortográfica.

Ambas destróem tradições, distorcem valores familiares, prejudicam comunicação entre gerações., defasam obras literárias e sites na internet.

Sobre a reforma ortográfica, tudo o que se aprendeu e escreveu até hoje, em português, de repente está errado!!  A acentuação,  hifenização, construção das palavras! De que adianta eu ter estudado por mais de uma década numa escola tradicional, conceituada, gabaritada, se todo o português que eu aprendi agora se tornou defasado, “coisa de velho”?

De que adiantou um coleguinha meu da escola ter “bombado” (repetido de ano) em português? De que adiantou eu ter passado de ano com notas tão boas em português? Agora nós dois estamos nivelados por baixo, ou seja, nós dois não falamos e escrevemos português corretamente! De que adiantou eu ter dedicado dias, horas, meses, anos de minha infância e adolescência, aprimorando, polindo, meu português??

Para que fiz isso? Para me comunicar melhor, sem dúvida. Mas a partir de agora, quando eu continuar a escrever, por exemplo, idÉia em vez de idEia, cefalÉia ao invés de cefalEia, mussarela ao invés de mOÇAarelaA (arrrrgh!!!) serei considerado errado e defasado. Tiraria zero numa prova de português.

A maneira de escrever em português simplesmente mudou de uma hora para outra. E essa não foi a primeira vez.

Isso distancia as gerações, pois quem passou a vida aprendendo e utilizando de um jeito, dificilmente se adequará completamente às novas (e cada vez mais confusas) regras, e será estigmatizado pelos mais novos como alguém que não domina corretamente seu próprio idioma.

Assim é que, na prática, ninguém REALMENTE fala ou escreve português, sem um professor de português (super atualizado) constantemente ao seu lado. Daqui a pouco, nem os professores de português vão saber corretamente. Eles vão perder mais tempo aprendendo tudo de novo que ensinando.

Quanto à (será que esse “a” ainda tem crase??) reforma escolar: para um pai, o que era pré-primário agora virou primeiro ano. O que já foi, no passado, denominado “científico” se transformou em “colegial”, para depois se transformar em “segundo grau”, e agora ter se transformado em não-sei-o-que (e esse “que”, será que tem circunflexo?? E os hífens, então???).

Quando eu sento para conversar com meu filho sobre o que ele está aprendendo no “quarto ano”,  eu não sei dizer a ele o que EU estava aprendendo no “quarto ano,” simplesmente porque eu não tive “quarto ano”. Eu posso ter tido “quarta série do ginásio” ou “do primário”, e portanto não consigo me localizar, me identificar no cronograma escolar atual. Isso gera distanciamento de gerações. Num país que leva sua cultura, tradição e idioma a sério, o conceito de “quarto ano” é o mesmo há muitas gerações. Não apenas o conceito, mas também o conteúdo e a idade correspondente coincidem. Isso é bom porque aproxima, identifica uma geração com a outra. Por mais que muitas mudanças ocorram entre gerações, você sempre vai saber que “com 10 anos você estava no 4o ano”. E por mais que as gírias sejam diferentes, as músicas e as roupas sejam diferentes, o CONTEÚDO do 4 ano, a álgebra do 4o ano, a georgrafia do 4o ano, o português do 4o ano, são equivalentes.

Você consegue entender como tudo isso prejudica nossa sociedade, nossas relações, valores e tradições?

Concluindo, no Brasil, na prática, todo mundo fala português e todo mundo não fala! Todo mundo escreve, mas ninguém escreve certo.

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Jacqueline - Casa do Simbad June 12, 2010 at 1:54 PM

MoÇARELA??? Socorro!!! Na minha profissão (tradutora) uma mudança dessas representa um enorme transtorno, pois as horas que poderia me dedicar pesquisando o idioma inglês para cada vez dominá-lo mais e/ou o assunto que traduzo, vou ter que regredir e estudar português, coisa que sempre fui tão boa… Lamentável! Não concordo com a unificação dos idiomas PT-PT e PT-BR. Somos países completamente diferentes, e jamais conseguiremos falar da mesma maneira – então porque precisamos escrever da mesma maneira??
Enfim…

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Mariza P. June 13, 2010 at 9:10 PM

Fui ótima aluna de português durante toda minha vida escolar, do primeiro ao terceiro grau. Fui professora primária durante muitos anos, depois bibliotecária. Sempre escrevi corretamente mas atualmente me sinto totalmente insegura e desconfortável ao escrever algum texto.

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joana February 17, 2011 at 10:12 PM

Eu tb sempre amei portugues,era excelente aluna. Mas depois dessa reforma, nao tenho mais tanta segurança….saudade das regras verbais, os acentos eram precisos

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Barbara Tavora June 13, 2010 at 9:21 PM

Sério? Agora é mOÇarela??? Caramba, isso dói!
Sinceramente não sei para que me serviu a faculdade de Letras, além do fato de não exercer a profissão, se eu hoje desejasse fazê-lo, teria que estudar/aprender tudo novamente, ignorando toda a carga anterior e isso é muito dificil (ou será difícil?).

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Rafaella Pordeus October 20, 2010 at 3:39 PM

Eu estava olhando a reforma ortográfica essa semana e pensando justamente no que comenta esse artigo…quantos anos de estudo pra tudo mudar agora…uma confusão…fiquei até com medo de escrever agora esse comentário…quantas palavras estariam erradas? Mais um absurdo que se observa no Brasil…

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Márcia Coelho December 8, 2010 at 9:59 AM

Espetacular este artigo que discorre sobre a esterelização do conhecimento adquirido ao longo dos anos e a neutralidade de uma gama de inovações que estão longe de promover ganhos linguísticos. Ao contrário, sucumbem junto com as perdas de hifens, tremas e acentuações gráficas, o discernimento do verdadeiro conteúdo das palavras, só sendo possível pela sua inserção num contexto maior, inibindo inclusive a exatidão da sua pronúncia. Quem estudou menos, ganhou a possibilidade de se safar de uma necrose gramatical. Quem estudou mais, ganhou a dúvida. Parabéns pelo seu artigo, Dr. Feldman!

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Melissa February 17, 2011 at 11:58 PM

Sempre foi moçarela. Os bons dicionários comprovam isso. Agrande maioria é sempre escreveu errado.

Para falar a verdade eu não dei a mínima para essas mudanças desnecessárias. Pelo menos por enquanto, pois tenho um filho de 4 anos e automaticamente vou aprender junto com ele.

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ivana August 1, 2011 at 7:26 PM

Olá, admiro o seu trabalho e o da Pat e acompanho sempre que posso.

É absolutamente normal sua postura quanto ao acordo ortográfico, porém simplista demais. Existe uma “anomalia” na língua portuguesa: a inexistência de uma única grafia do português, num mundo onde esta uniformidade existe no espanhol, francês, inglês, árabe, etc. Ok, a culpa é do sistema econômico, da dimensão geográfica e da desorganização (nossa língua não foi “pensada” como o espanhol, por exemplo, que tem a Real Academia).

O Acordo Ortográfico é extremamente DEMOCRÁTICO e acompanha o que nós sempre vemos na história de qualquer idioma: evolução. A língua é viva, nós linguístas e professores adoramos dizer isto. E é verdade, a nossa língua não é morta, não é latim, não é esperanto. É uma língua viva, que continua em atividade. Com o tempo, os falantes do português vão escolhendo melhores formas de falar e grafar, as que se adequam mais à sua realidade. Isto ocorreu com o latim, lembra? Venceu qual? O latim popular, o latim povão.
O povo manda, sempre foi assim (a voz do povo é a voz de quem?). Acredito que se deve evoluir, evoluir o pensamento, acompanhar as mudanças. A Língua Portuguesa não é falada apenas no Brasil. :S E se devemos aprender a escrever sem trema, qual é o problema? não aprendemos tantas outras coisas todos os dias? Antes, todos reclamavam das regras de tremas e hífens, e etc. Agora, reclamam porque mudaram estas regras (o que, se você observar bem, verá que facilitou demais!!)
Vamos pensar grande, por favor.
Um abraço!

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Dr. Alexandre Feldman August 1, 2011 at 8:04 PM

Obrigado Ivana, pelas palavras de carinho e também pelo comentário.

Mas é debatível se facilitou. “Idéia”, por exemplo, deixou de ter acento e virou “Ideia”. Então como diferenciar agora a pronúncia de “ideia” da pronúncia de “candeia”? Ou “baleia”? Ou “cefaleia”, “amenorreia”, e outros termos que antes era perfeitamente possível pronunciar sem jamais ter conhecido o significado ou tê-los ouvido?

É debatível se a nova hifenização facilitou. Na minha opinião dificultou. Hífens sempre foram regidos por regras e essas regras apenas se modificaram, sem se aproximar de qualquer lógica intuitiva para facilitar seu uso.

Já palavras com letras jamais pronunciadas, como o “h”, continuam como estão.. Em português, nenhuma palavra se inicia foneticamente com “H”, no entanto aí está o H em hotel, hospital, hospedaria… Por que não tornar intuitiva a escrita abolindo o H? “Ospedaria” existe em espanhol e guarda mesma origem e significado. Isso sim seria evoluir.

O trema é outro exemplo de evolução para uma escrita cada vez menos lógica e intuitiva, mas o trema já havia caído antes da última reforma ortográfica. Sem o trema, como distinguir foneticamente “preguiça” de “linguiça”? Línguas de países sérios e de alta tradição e produção literária e linguística como o alemão, mantêm o trema pela mesma simples razão. De ontra forma, como diferenciar foneticamente a palavra “über” de se antônimo (ou será antonimo? ou antónimo como se usa em Portugal), “unter”? Impensável!

Aliás, quanta gente PARA PARA pensar nisso?

Simplista? Vejamos o seu argumento de que existe uma “anomalia” na língua portuguesa, qual seja, a inexistência de uma única grafia num mundo onde essa uniformidade existe. A meu ver, a grafia diferente advém da cultura diferente. Na Espanha se falam muitas línguas, numa diversidade fonética e gramatical imensamente maior que todas as variações do português, que alás não são poucas. E observe que todos estão no mesmo território, mas que para muitos cidadãos espanhóis o verdadeiro espanhol é catalão ou basco ou galício ou aranês. O mesmo ocorre na África do Sul, onde se fala inglês, afrikaans, zulu, sotho (duas variações, uma do norte), ndebele, swazi, tsuana, tsonga, venda, xhosa et cetera. Você cita a língua árabe como uniforme, mas no Líbano, por exemplo, fala-se um “árabe libanês”, que possui diferenças marcantes do árabe formal – por exemplo, enquanto o árabe formal pode possuir apenas uma consoante no início de uma silaba e após a qual deve se seguir uma vogal, no árabe libanês é possível encontrar duas consoantes em sucessão. E no Egito fala-se um “árabe egípcio”, no Sudão um “árabe sudanês o qual possui pelo menos duas subdivisões, no Marrocos um “árabe marroquino”, e assim por diante um árabe diferente para a Tunísia, Argélia, Líbia, além do dialeto hassania (será que com a reforma ortográfica da língua portuguesa nós temos condição de saber se esse “H” se pronuncia? Ou ao menos se a palavra é oxítona ou paroxítona?) falado pela região do Magrebe, e o árabe saariano, falado no deserto. Será que eles também deveriam ir começando a escolher “a melhor forma” de falar e grafar?

Você cita a Real Academia Española, mas ela tem a função de tentar uniformizar apenas o castelhano, “língua oficial de todos os países cuja língua oficial é o castelhano”. Mas não vejo como comparar a Real Academia, instituição Real baseada em Madrid e que engloba 21 nações representadas pela Associação das Academias de Língua Espanhola. E por sinal a Real Academia é conhecida pelo seu conservadorismo e resistência a mudanças abruptas, e é severamente criticada por se concentrar no castelhano e desprezar as variantes do próprio Castlhano. E na França temos a Académie Française, incrivelmente conservadora quanto a mudanças abruptas – já imaginou você ou eu aprendermos francês e de repente tudo muda? Impensável! Os hífens e acentos continuam lá, facilitando a fonética e valorizando a boa dicção. Se lermos um texto do Cardeal Richelieu, fundador da Académie Fançaise, não veremos tantas diferenças com o francês contemporâneo. Mas a Académie Française, como a Real Academia Española, também se opõe com unhas e dentes aos regionalismos alsaciano, francoprovençal (ou será franco-provençal?), córsico, occitano etc.

Seu argumento, em termos gerais e históricos, pode ser válido – de que as línguas mudam. Porém isso ocorre, e está ocorrendo, naturalmente, neste exato momento, justamente porque elas estão sendo faladas, e não porque alguém mandou mudar de repente! Mas na minha opinião este argumento não justifica mudanças burocráticas espúrias. Acho, na minha humilde opinião de membro do povão que sou (e por isso mesmo desejo todo auxílio fonético na grafia da língua que eu puder obter, que a torne o quanto mais fácil e intuitiva), que qualificar reformas ortográficas como democráticas e necessárias não deveria isentá-las automaticamente de críticas como a minha – simplista ou não, mas toda minha.

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ivana August 1, 2011 at 7:29 PM

Ah! e é bom sempre rever o conceito de “certo e errado” na linguística e ler um pouco sobre variedades linguísticas. É um assunto super interessante e de interesse geral! :)
abraço!

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