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A Melhor Escola para Nossos Filhos

escolaAntes de colocar meu filho pequeno na escola, refleti sobre quais frutos gostaria que ele colhesse como resultado de sua educação:

  • Otimismo
  • Imaginação
  • Criatividade
  • Lliderança
  • Integridade
  • Coragem
  • Ousadia
  • Perseverança
  • Compromisso com a excelência
  • Reverência pelo passado
  • Esperança pelo amanhã…

Todo mundo quer dar uma boa educação a seus filhos. Mas qual a melhor escola para isso? Serão as escolas convencionais a melhor alternativa?

Na minha opinião, as escolas convencionais pararam no tempo. Elas continuam como sempre fizeram, agrupando seus alunos em “salas de aula”, nas quais todos aprendem principalmente a ficar quietos escutando, passivamente, um professor – aula após aula, horas a fio, dia após dia, ano após ano. Será que isso é aprender liderança, criatividade e todas as demais qualidades enumeradas acima?

Transcrevo abaixo as palavras de Sir Ken Robinson, especialista de renome mundial na área de educação:

Quem aqui discorda que as crianças têm capacidades e potencialidades realmente extraordinárias – principalmente de inovação? Todas as crianças possuem talantos maravilhosos, que acabamos desperdiçando sem dó nem piedade em salas de aula onde nada se cria, muito menos se inova, e sim se ouve passivamente sem questionar – e com a ameaça constante de provas e notas baixas.

Na minha opinião a criatividade e inovação deveriam ser tão importantes quanto a alfabetização no processo educativo básico, e deveriam ser tratadas com o mesmo vigor.

Você já se perguntou como uma criança pequena, que ainda não entrou na escola, consegue aprender tanto? A criança aprende, por exemplo, a falar os idiomas da casa (desde que os pais se comuniquem com ela nesses idiomas). Todos sabemos a dificuldade que é aprender a falar um idioma – não apenas a imensa coordenação necessária para movimentar boca, língua e todo o sistema fonador de modo a formar palavras e frases, mas também a necessidade de memorizar palavras e utilizá-las em frases estruturadas.

Como é que as crianças aprendem a falar? Elas balbunciam. Erram sem medo e através de novas tentativas vão aprendendo até a perfeição, brincando e se divertindo durante todo o processo.

Para aprender a andar não é diferente. Elas tentam. Engatinham. Se movimentam das formas mais esdrúxulas e até engraçadas. Cometem toda sorte de erros e caem durante toda a primeira infância. Não temem ser desengonçadas nesse processo.

Diz Sir Ken Robinson em uma de suas famosas palestras:

O que isso nos mostra? Que as crianças, quando não sabem uma resposta ou solução para aquilo que desejam fazer, “chutam” a resposta, e assim balbunciam, engatinham, criam, aprendem. Ao criar novas soluções elas podem cometer erros – e cometem! – porém no final acabam aprendendo. As crianças, antes de entrar na escola, não têm medo de ousar, errar, criar e perseverar.

É claro que errar não é sinônimo de ser criativo. Mas para criar é preciso errar. Se você não for preparado para errar, certamente jamais surgirá com algo criativo e original em toda a sua vida. Quanto mais provas, maior a chance do indivíduo temer o erro, abandonar a criatividade e estudar sem questionar, para tirar a melhor nota possível. E assim, ao atingir a idade adulta e o mercado de trabalho real que recompensa, e muito, a criatividade, a maioria dos indivíduos já perdeu esta capacidade.

A escola estigmatiza os erros. Pune-os da pior forma possível. A escola educa as pessoas a se afastarem de sua capacidade criativa. Foi Picasso quem afirmou, “– Todas as crianças nascem artistas. O problema é permanecerem artistas conforme vão crescendo.” Em outras palavras, se um indivíduo não se desenvolve no seio da criatividade, ele a perde.

Nas escolas convencionais, a criança vai adquirindo um medo cada vez maior de errar. O sistema educacional enxerga os erros como a pior coisa que pode acontecer.

Todos os sistemas educacionais possuem a mesma hierarquia de matérias. No topo está a matemática e o português, mais abaixo estão as ciências humanas, e por último as artes. E dentro das artes também existe uma hierarquia: a pintura e a música recebem uma importância maior nas escolas que as artes dramáticas e a dança.  Não existe uma escola no mundo que dê a mesma ênfase ao ensino da dança que ao ensino da matemática. Por que? A matemática pode ser muito importante, mas com certeza a dança também é.  Todas as crianças têm vontade de dançar, todos os adultos mexem o corpo ao som de uma música. Afinal, todos nós temos um corpo!  Conforme as crianças crescem, a atenção à sua educação vai se voltando progressivamente da cintura para cima.  E por fim, focaliza-se na cabeça – infelizmente, apenas em um único hemisfério do cérebro.

Para que serve o “sistema educacional” prevalescente? O que a educação convencional almeja? O que acontece com aquele aluno que faz tudo o que deve? Quem é o mais favorecido? Quem vence nessa competição? Tipicamente, são pessoas que acabam vivendo inteiramente dentro de suas cabeças – mais que isso: em um único lado de seus cérebros cerebrais – como se fossem desprovidos de corpo. Olham para seu corpo como um meio de transporte para suas cabeças.

Nosso sistema educacional é baseado na noção de capacidade acadêmica. E isso tem um motivo: todo o sistema educacional atual foi inventado no fim do século 19. Ele passou a existir com a finalidade de atender às necessidades da industrialização. A hierarquia desse sistema é baseada em duas noções:

1)   Os tópicos mais importantes para o trabalho num sistema industrial se encontram no topo da hierarquia. O foco dos alunos é gradualmente desviado de uma série de assuntos e coisas que a criança originalmente gostava, sob a justficativa que um indivíduo jamais conseguirá um emprego dedicando-se a essas coisas e assuntos. “Não se dedique tanto à música, você nunca será um músico”. “Não se dedique tanto à pintura, você nunca será um artista”. Conselhos bem-intencionados – porém, nos dias atuais, profundamente equivocados.  O mundo inteiro está passando por uma verdadeira revolução neste sentido.

2)   Capacidade acadêmica, a qual passou a dominar nossa visão sobre inteligência, pois as universidades criaram o sistema à sua própria imagem e semelhança. Se você imaginar que todo o sistema educacional nada mais é que um sistema protraído objetivando o ingresso à universidade, a consequência é que muitas pessoas altamente talentosas, criativas e brilhantes acabam achando que não valem nada! Afinal, eles nunca foram bem na escola, nunca foram valorizadas e sempre foram estigmatizadas sem dó nem piedade. E na minha opinião, isso não deveria continuar.

Nos próximos 30 anos, segundo a UNESCO, mais pessoas no mundo vão se formar na faculdade que em todos os tempos desde o início da história das civilizações. É a combinação de tudo o que já foi falado: a tecnologia e seu efeito transformacional no sistema de trabalho, aliados à demografia, à explosão populacional. De repente, ser formado na faculdade passa a não valer mais nada. Décadas atrás, se você se formasse você tinha emprego garantido.  Hoje em dia, o aluno se forma e precisa continuar fazendo um mestrado, doutorado, MBA, pós-doutorado e por aí vai.  É a inflação acadêmica. E isso indica, para quem quiser ver, que toda a estrutura educacional está profundamente abalada.

Precisamos repensar radicalmente nossa visão da inteligência. Sabemos 3 coisas sobre a inteligência:

  1. A inteligência é diversa. Nós podemos conceitualizar o mundo através de todas as formas sensoriais: visualmente, sonoramente, cinestesicamente, abstratamente.
  2. A inteligência é dinâmica. Se observarmos as interações do cérebro humano, compreenderemos facilmente que a inteligência é maravilhosamente interativa. O cérebro, na prática, não é dividido em compartimentos. Tudo está integrado. A criatividade, que pode ser definida como o processo de ter idéias originais que tenham valor, é resultante quase sempre da visão das coisas através de uma abordagem interdisciplinar.
  3. A inteligência se manifesta de forma diferente para cada indivíduo. Era uma vez, na década de 1930, uma menina de 8 anos que era a pior aluna de sua classe. A escola chegou a enviar uma carta aos pais, alertando que ela estaria sofrendo de um distúrbio do aprendizado, pois não conseguia se concentrar e vivia mexendo nervosamente as mãos e pés (algo que hoje em dia poderia se encaixar no espectro diagnóstico do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, TDAH. Mas na década de 1930 a TDAH ainda não havia sido “inventada”).  Ela foi levada a um médico, onde ficou por 20 minutos ouvindo pacientemente a mãe explicar a ele tudo o que a escola achava que estava errado: que ela não fazia a lição de casa, vivia mexendo nervosamente os dedos das mãos e assim por diante. No final, o médico disse à menina: “– Eu ouvi atentamente tudo o que sua mãe disse.  Agora eu gostaria de falar com sua mãe em particular. Você espera aqui na sala e nós voltamos já.”  Mas antes de sair da sala, o médico ligou um rádio que se encontrava em cima de sua mesa. Saindo pela porta, o médico sussurrou à mãe: “– Apenas fique quieta e observe sua filha pela fresta da porta.”  E a menina, sozinha na sala, levantou-se e começou a dançar ao som da música. Depois de alguns minutos de observação, o médico disse à mãe, “ – Sua filha não está doente. Ela é uma dançarina, apenas isso.”  E aconselhou: “– Leve-a para uma escola de dança.”  E essa menina se tornou uma multimilionária realizada na vida: a grande coreógrafa inglesa Gillian Lynne, que fez sucesso coreografando alguns dos mais famosos musicais da história da humanidade, como O Fantasma da Ópera e Cats. Talvez outro médico, nos dias de hoje, tivesse apenas medicado a criança para que ela se “acalmasse”.

Nossa esperança para a educação do futuro é a adoção de um novo conceito, onde se reconheça a riqueza do talento e capacidade do ser humano.

O sistema educacional atual explora nossas mentes do mesmo modo que nós exploramos selvagemente nosso próprio planeta, em nome de uma ou outra commodity, numa visão totalmente reducionista.

Precisamos repensar os princípios findamentais do ensino e educação de nossas crianças. Precisamos  celebrar cada vez mais o dom da imaginação humana. E precisamos usar esse dom sabiamente a fim de evitar algumas das situações acima. E a única maneira de se conseguir isso é reconhecendo o talento criativo pela riqueza que ele representa, e reconhecendo as nossas crianças pela esperança que elas representam. E assim, fazer da nossa meta a educação das nossas crianças como seres de corpo, mente e alma, a fim de prepará-las para o futuro. Um futuro que talvez não vejamos, mas que elas verão.

Sir Ken Robinson.


4 comentários para A Melhor Escola para Nossos Filhos

  • carlos roberto medina

    Grato pela sua abertura.aguardo mais publicações.Ser e se fazer ser é bem diferente!

  • Iana

    Olá, dr. Alexandre Feldman! Fantástico o artigo! Traduziu em palavras o que intuitivamente eu pensava. Hoje em dia não moro mais em SP, mas na cidade onde estou atualmente, encontrei uma escola alternativa, a Seta Nossa Escolha, que parece seguir os parâmetros que descreveu. O ambiente também é bem lúdico, não há corredores, as salas se interligam umas às outras, as crianças transitam entre elas, não há material didático, nem uniforme, a entrada é uma escada vermelha que parece dar numa floresta, não há campainha mas um sino, e ainda há um tubofone (espécie de telefone sem fio) por onde se chamam as crianças na hora de irem embora. Todavia, como em todo lugar, nem tudo é perfeito: os pais, por exemplo, não têm espaço para participar de nada, sofro uma alienação forçada sobre o dia-a-dia dos meus filhos na escola. Também conheci a Lumiar e achei maravihosa, mas muito longe de onde eu morava. Infelizmente, há poucas opções alternativas como essas, seja em SP ou em Londrina-PR, onde moro hoje em dia.

  • Meu artigo sobre a melhor escola para nossos filhos: http://tr.im/F02v

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